terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O PRAZER MÓRBIDO DE TODOS NÓS



Falar em prazer e sofrimento é questionar limites muito tênues em nosso comportamento.

No entanto, a busca por ultrapassar estes limites costuma ser constante viciante e destrutiva… 

Talvez a neurociência possa ajudar: sabe-se que a área cerebral responsável pela recepção de sinais de prazer é adjacente a área da dor. 

Será por isso as pessoas costumem confundir estas duas sensações – extremos de uma mesma natureza, mas opostos em sua polaridade? 

Aos olhos da nova psicologia, já constatamos o que os antigos sábios e tradições verificaram há séculos atrás, mas agora com precisão numérica: nossa mente é consciente, em média, 5% de nossas vidas. 

O que isso significa? 
Que todo o restante é feito de padrões, programação, repetição, inconsciência – metaforicamente falando, vivemos sonhando e pensamos que estamos acordados, porque o sonhador raramente sabe que sonha.

Em nosso contexto, podemos dar ao termo inconsciência alguns entendimentos bastante simples: tomar atitudes que provocam dor e sofrimento a si mesmo e aos demais, sem sequer perceber-se disso; fazer coisas sem ser plenamente responsável por suas consequências; provocar situações ou viver de forma dolorosa sentindo um estranho prazer subjacente a estas atividades. 

A raiva, por exemplo, provoca descargas de adrenalina no corpo, acelera todos os sistemas, prejudica a saúde afetando ossos, coluna, intestino grosso, rins, próstata e dentes, produz congestão hepática devido a alteração do ritmo cardíaco. 

Situações de tensão, através de um filme ou um parque de diversões, provocam reações orgânicas semelhantes a da raiva. Nem por isso salas de cinema ou os esportes radicais perdem sua bilheteria.

Pense um pouco: que outro ingrediente motiva programas e jogos de guerra, violência ou mutilação? 
Cenas de agressividade e morte já são o destaque nos grandes portais de internet. 

São seres humanos, como eu e você, apenas desconhecidos, mas continuam humanos. 

Se fossem sua família ou filhos a atração teria o mesmo sabor? 
Parece incrível, mas algumas pessoas mantém sua doença como forma de chamar a atenção para si. 

Em alguns casos, não podemos cumprimentar a pessoa com um “como vai?”, sob pena de ouvir o mesmo refrão: “ah nada bem, meu médico disse…” 

A paixão, embora seja uma palavra que suscita suspiros profundos, costuma transformar-se em ódio em pouco tempo. 

Encontramos alguém que, por algum tempo, supre nossas carências e necessidades, nos preencha emocionalmente. 

Passado o encanto – e isso tem acontecido cada vez mais rapidamente – vem a triste realidade: mostramos quem somos e vemos claramente a outra pessoa, sem máscaras. 

Nos casos mais sórdidos, a convivência converte-se em violência verbal ou física – e mesmo assim, entre “tapas e beijos”, muitas pessoas insistem em manter o tal “relacionamento amoroso”… 

Que dizer da chantagem emocional? Transformar outra pessoa culpada para nos aliviar ou realizar nossos desejos parece saudável? “A culpa é toda sua, se tivesse feito desta maneira nada disso teria acontecido…”

Conheço algumas pessoas que preferem manter a saudades de alguém a elimina-la radicalmente (mesmo conhecendo EFT). Sustentam a dor como forma de provarem ao outro – e a si próprios – que amam aquele que se foi. 

Alimentam-se de tristeza e suspiros diários, e mesmo percebendo o aperto no peito e a compressão geral pelo corpo, não tomam atitudes saudáveis para mudar… 

Ressentimentos e mágoas, ao ressonarem constantemente em nossa mente, fazem com que a raiva pelo passado se mantenha viva (lembre que nossa mente inconsciente não diferencia passado de presente, e o corpo reage sempre de maneira equivalente àquilo que sentimos). 

E cada vez que recontamos a mesma história, transformamos o evento em algo ainda pior do que já foi. Exageramos os fatos, assim nos tornamos mais vítimas por algo que existe apenas como um pensamento e, mesmo com dor, relembramos a história continuamente. 

Envelhecemos prematuramente graças ao excesso de passado em nós… Alguns chefes ou pais de família precisam da coação como forma de obter resultados, outra maneira de mostrar “quem é que manda” – mesmo à custa de desarmonia… 

Os fofoqueiros de carteirinha, pessoas compulsivas por apontar falhas (muitas vezes fantasias) na personalidade de outros fazem parte do time. 

Cheios de boas intenções, alertam as pessoas próximas das mazelas dos demais. Mas ao fazê-lo, damos a entender que não fazemos da mesma maneira… será?! 

A cobiça, o excesso de trabalho e acúmulo de bens seguem a mesma linha. Gastamos a saúde para acumular bens, e depois os bens para recuperar a saúde… 

A decepção é um espetáculo à parte: criamos expectativas a respeito de algo ou alguém, geralmente embasadas em nossas próprias fantasias pessoais, e quando a realidade não corresponde àquilo que esperávamos, projetamos nossa negatividade ao dizer “fulano é isso ou aquilo, ele me decepcionou”. 

E novamente, encontramos um culpado para justificar nossa própria ignorância… E a alimentação desregrada então? Todo mundo sabe onde ela vai dar… Ainda outro dia passei por um mercadinho de bairro, onde a caixa trabalhava com mais atenção na novela da tarde do que nos clientes. 

Uma passada rápida com os olhos pela TV já me provocou náuseas, mas a identificação da moça com o drama era tão forte que não a permitia observar a tensão que todo o seu corpo exprimia… 

Porque agimos assim? 
Há vários motivos pra isso: Somos viciados em emoções negativas – mesmo que muitas vezes lhes demos o nome de prazer (sadomasoquistas são um exemplo clássico deste limite tão tênue e mostram que a questão é muito mais mental do que física). 

Além disso, todo vício é destrutivo e raramente observado desta maneira pelo seu usuário. 

Mesmo dependentes químicos costumam se dar conta do seu próprio sofrimento apenas quando em risco de vida. 

Não sabemos fazer diferente porque aprendemos assim. Inconsciente, apenas repetimos padrões a que estamos condicionados sem questionar.

Isso faz com que seja necessário algum esforço para enxergar outros ângulos e provocar uma mudança profunda. 

Porque nossa sensibilidade é cada vez mais endurecida, seja em função de toda a negatividade despejada diariamente pela mídia ou por maus hábitos alimentares. 

Pode parecer incrível, mas comida industrializada diminui nossa percepção corporal. 

Este é um dos motivos pelos quais uma alimentação viva e frugal contribui para a saúde, já que acabamos percebendo os alertas que o corpo nos dá muito antes que uma doença se instale. 

Conclusão
E finalmente: confundimos nossas emoções com quem somos realmente, e vamos até as ultimas consequências pra defender este pequeno e eternamente insatisfeito “eu”. 

Somos extremamente apegados ao nosso jeito de ser – a imagem mental que fazemos de nós mesmos. 

Pode ser doente e infeliz, mas temos medo de viver sem essa identidade. 

E esta é a triste realidade dos fatos: para sair da roda da dor, é preciso promover uma mudança interna, profunda e transformadora. 

É preciso ter realmente a ânsia de conhecer-se, ver-se tal como se é e, em muitos casos, converter-se em alguém diferente. 

Mas muito poucos estão dispostos a abrir mão de quem são porque isso significa, entre outras coisas, deixar de lado seus vícios, apegos e sua consequência inevitável: o prazer que o sofrimento traz… 

http://www.eftbrasil.net.br/artigos/o-prazer-morbido-do-sofrimento/

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