INTRODUÇÃO
A Psicoterapia Centrada na Pessoa (PCP), desenvolvida por Carl Rogers, representa um modelo terapêutico humanista que enfatiza a capacidade inerente do indivíduo para o crescimento pessoal e a autorrealização.
O processo psicoterápico ocorre ao longo de sete fases, que refletem a evolução do cliente desde uma postura defensiva e rígida até um estado de maior abertura, autenticidade e autocompreensão. Essas fases não são necessariamente lineares e variam de acordo com o ritmo e a singularidade de cada cliente.
As fases refletem a evolução do cliente desde uma postura defensiva e rígida até um estado de maior abertura, autenticidade e autocompreensão.
O
presente texto busca descrever essas etapas, oferecendo uma visão detalhada de
cada uma delas e evidenciando sua importância no contexto psicoterapêutico.
1.
RESISTÊNCIA À MUDANÇA (FASE ESTÁTICA)
ü O cliente tem
pouca ou nenhuma consciência de suas dificuldades emocionais.
ü Sua comunicação é
superficial e defensiva.
ü A mudança é vista como uma ameaça, e há pouca motivação para o autoconhecimento.
Essa resistência pode se manifestar na relação terapêutica de diversas formas, como dificuldades em confiar no terapeuta, relutância em explorar sentimentos mais profundos ou um discurso racionalizado que evita contato genuíno com as emoções.
O terapeuta pode lidar com essa resistência adotando uma postura empática e acolhedora, criando um ambiente seguro no qual o cliente se sinta confortável para expressar suas dificuldades sem medo de julgamento.
Estratégias como a escuta ativa, reformulação empática e a validação das preocupações do cliente são fundamentais para facilitar a abertura ao processo terapêutico.
2.
RECONHECIMENTO INDIRETO DAS DIFICULDADES
ü O cliente começa a
reconhecer problemas, mas tende a externalizá-los (culpar os outros ou as
circunstâncias).
ü Suas emoções são
expressas de maneira distante, sem envolvimento profundo.
ü Ainda há forte resistência a mudanças internas.
Essa externalização pode se manifestar de várias formas, como a atribuição de culpa a terceiros, justificativas constantes para seus comportamentos ou a minimização da gravidade de suas dificuldades.
Por exemplo, um cliente pode afirmar que seu sofrimento emocional se deve exclusivamente ao comportamento de familiares ou colegas de trabalho, evitando refletir sobre seu próprio papel na situação.
O
terapeuta pode ajudar o cliente a assumir maior responsabilidade por suas
dificuldades através de estratégias como perguntas reflexivas, reformulação
empática e validação de sentimentos. Incentivar a autoexploração por meio de
questões abertas, como "Como você se sente em relação a essa
situação?" ou "O que você poderia fazer de diferente?", pode
estimular o cliente a desenvolver maior consciência sobre sua participação nos
desafios que enfrenta.
Dessa forma, gradualmente, ele começa a internalizar sua experiência e a perceber que tem poder sobre suas próprias mudanças.
O cliente começa a reconhecer problemas, mas tende a externalizá-los (culpar os outros ou as circunstâncias).
Suas emoções são expressas de maneira distante, sem envolvimento profundo.
Ainda há forte resistência a mudanças internas.
3.
COMEÇO DA EXPLORAÇÃO INTERIOR
ü O cliente
reconhece que suas dificuldades são internas e não apenas externas.
ü Começa a se abrir
um pouco mais, mas ainda com cautela.
ü A comunicação de emoções se torna mais fluida, embora existam contradições e bloqueios.
Nesse estágio, o cliente pode enfrentar desafios significativos, como resistência emocional e ambivalência.
Muitas vezes, há um conflito interno entre o desejo de mudança e o medo do desconhecido, o que pode levar a momentos de regressão no processo terapêutico.
O cliente pode oscilar entre a aceitação e a negação de suas dificuldades, experimentando insegurança sobre sua capacidade de lidar com suas emoções.
Para lidar com essas dificuldades, o terapeuta pode reforçar a aceitação incondicional e a empatia, criando um espaço seguro para que o cliente se sinta confortável ao explorar suas emoções mais profundas.
O uso de intervenções que promovam a reflexão e o autoconhecimento, como a reformulação empática e a valorização das pequenas mudanças, pode ser essencial para ajudar o cliente a superar sua ambivalência e avançar para um nível mais profundo de autocompreensão.
4.
EXPRESSÃO DE SENTIMENTOS INTENSOS
ü O cliente passa a
se expressar com mais liberdade e profundidade.
ü Há maior contato
com suas emoções e reconhecimento de sua subjetividade.
ü As experiências são exploradas sem tanta necessidade de defesa.
Nesse estágio, é essencial que o terapeuta valide e acolha as emoções do cliente, criando um ambiente seguro para sua expressão. Isso pode ser feito por meio da escuta ativa, reformulação empática e reconhecimento genuíno dos sentimentos apresentados.
Ao demonstrar aceitação incondicional, o terapeuta fortalece a relação terapêutica e incentiva o cliente a aprofundar ainda mais sua exploração emocional. Esse suporte é fundamental para que o cliente sinta que suas emoções são compreendidas e legitimadas, facilitando um processo de crescimento pessoal e autoconhecimento.
5.
ABERTURA À EXPERIÊNCIA
ü O cliente
demonstra maior flexibilidade e menos rigidez em sua visão de si mesmo.
ü Aceita melhor seus
sentimentos, tanto positivos quanto negativos.
ü Passa a integrar suas experiências de maneira mais genuína e menos fragmentada.
Essa
fase impacta significativamente o dia a dia do cliente, pois ele passa a reagir
de maneira mais adaptativa às situações que antes lhe causavam desconforto.
A aceitação emocional permite uma comunicação mais autêntica em seus relacionamentos, favorecendo vínculos mais saudáveis e a redução de conflitos internos.
Mudanças comportamentais podem incluir maior espontaneidade, capacidade de expressar emoções sem medo do julgamento e uma postura mais aberta ao aprendizado e às novas experiências.
O cliente pode também demonstrar maior resiliência diante de desafios, sentindo-se mais confiante em sua capacidade de lidar com dificuldades de maneira equilibrada.
6.
ACEITAÇÃO E CONGRUÊNCIA
ü O cliente
experimenta um senso de autenticidade e autoaceitação.
ü As contradições
internas diminuem e há maior alinhamento entre emoções, pensamentos e
comportamentos.
ü A mudança passa a
ser vista como algo natural e desejável.
Essa aceitação influencia diretamente a autoimagem do cliente, que passa a se perceber de forma mais positiva e integrada.
Ele desenvolve uma visão mais realista de si mesmo, reconhecendo tanto suas qualidades quanto suas limitações sem recorrer a autocríticas excessivas. Esse processo fortalece sua autoestima e permite que ele construa uma identidade mais sólida e coerente.
Além disso, essa mudança reflete em suas relações interpessoais, pois o cliente se torna mais genuíno em suas interações.
Ele passa a estabelecer vínculos mais saudáveis, baseados na autenticidade e no respeito mútuo, diminuindo a necessidade de aprovação externa.
Como resultado, há um aumento da qualidade de suas conexões sociais, promovendo um maior bem-estar emocional e relacional.
7.
VIVÊNCIA PLENA (FUNCIONAMENTO PLENO)
O cliente alcança um estado de autoconfiança e espontaneidade e encontra soluções para seus desafios internos de maneira mais independente, demonstrando capacidade de viver de forma mais autêntica e alinhada com seus valores.
A longo prazo, essa fase se reflete em um estilo de vida mais equilibrado e harmonioso, no qual o cliente mantém uma atitude aberta à experiência e à aprendizagem contínua.
No entanto, desafios podem surgir, como o risco de recaídas diante de adversidades ou mudanças significativas na vida.
Para sustentar esse funcionamento pleno, é essencial que o cliente continue exercitando a autoexploração, o autoconhecimento e a aceitação de suas emoções.
Além disso, manter conexões significativas e buscar apoio quando necessário pode fortalecer essa vivência plena.
Estratégias como a prática da autorreflexão, a manutenção de hábitos saudáveis e a participação em grupos de apoio ou terapia de acompanhamento podem auxiliar na preservação desse estado, garantindo um crescimento contínuo e uma adaptação flexível aos desafios da vida.
CONCLUSÃO
A Psicoterapia Centrada na Pessoa propõe um percurso transformador no qual o cliente, a partir da relação empática e acolhedora oferecida pelo terapeuta, pode desenvolver maior autenticidade, autoconhecimento e aceitação de si mesmo.
O modelo das sete fases possibilita uma compreensão do progresso terapêutico, evidenciando como, gradualmente, o indivíduo passa de um estado de resistência à mudança para uma vivência plena de sua identidade e emoções.
Compreender essas etapas é fundamental para profissionais da psicologia, pois auxilia na adaptação do atendimento de acordo com as necessidades individuais de cada paciente, respeitando seu tempo e seu processo singular de crescimento pessoal.
No entanto, é bom lembrar que sssa progressão não é linear, e cada pessoa pode passar por essas fases de maneira única, avançando e retrocedendo em diferentes momentos do processo terapêutico.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
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uma introdução ao estudo da psicologia. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2021.
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