quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ÁLCOOL: UMA DROGA MAIS PERIGOSA DO QUE MUITA GENTE PENSA


A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou recentemente (12/05/14) o Relatório Global sobre Álcool e Saúde, que traz informações sobre o consumo de álcool no mundo e avalia os avanços realizados nas políticas do álcool desde a publicação das Estratégias Globais para Redução do Uso Nocivo do Álcool, em 2010. 

A COMPOSIÇÃO QUÍMICA DO ÁLCOOL
O etanol (ou o “espírito do vinho”, do latim spiritus vini), cuja fórmula química é C2 H5OH, é um líquido incolor encontrado em todas as bebidas alcoólicas.

Além do etanol, são encontrados, nas bebidas alcoólicas, outros produtos de sua maturação ou fermentação, como metanol, butanol, aldeídos, ésteres, histaminas, fenóis, ferro, chumbo e cobalto, que são, em grande parte, responsáveis pela diferenciação de sabor entre os tipos de bebidas.

O EFEITO DO ETANOL NO ORGANISMO
O etanol é uma molécula simples que se move facilmente através das membranas celulares, equilibrando-se rapidamente entre o sangue e os tecidos. 

O nível do álcool no sangue é expresso em miligramas ou gramas de etanol por decilitro (p.ex., 100 mg/dL ou 0,10 g/dL); um nível de 0,02 a 0,03, por exemplo, é o resultado da ingestão de uma a duas doses de bebidas alcoólicas. 

O organismo, subsequentemente, metaboliza e excreta aproximadamente uma dose por hora.
Cerca de 2 a 10% do etanol (baixas e altas concentrações de álcool no sangue, respectivamente) é excretado diretamente pelos pulmões, pela urina ou pelo suor, mas a maior parte é metabolizada no fígado. 

A mais importante via de metabolização, porém, ocorre no citosol das células hepáticas, em que a álcool desidrogenase (ADH) produz o acetaldeído, que é rapidamente destruído pela aldeído desidrogenase (ALDH) no citosol e na mitocôndria do hepatócito. 

Em altas doses, a aldeído desidrogenase pode produzir histamina e, por mecanismos variados, causar diminuição dos níveis pressóricos, náusea e vômitos.

Apesar do álcool fornecer calorias (uma dose de bebida alcoólica contém 70 a 100 kcal), estas são desprovidas de nutrientes, como minerais, proteínas e vitaminas.

O álcool pode, também, interferir na absorção de vitaminas no intestino delgado e diminuir seu armazenamento no fígado com efeitos no folato (ácido fólico), na piridoxina (B6), na tiamina (B1), no ácido nicotínico (niacina, B3) e na vitamina A.

Alguns indivíduos metabolizam o álcool melhor que outros. Além disso, é possível que ocorra algum tipo de alteração no sistema biológico devido ao consumo frequente e abusivo do álcool ou ao esgotamento do organismo, fazendo com que uma pessoa que, até então, tolerava bem o álcool passe a reagir ao consumo de forma patológica.

DEFINIÇÃO DE ALCOOLISMO – DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL
A maioria das pessoas que bebem o faz de forma moderada. 

Contudo, há evidências de que o “beber demais ou pesado” tem se tornado cada vez mais frequente e disseminado tanto entre homens quanto entre mulheres. 

Assim, o aparecimento de problemas decorrentes desse padrão de beber é cada vez mais comum, mesmo em indivíduos que não apresentam o diagnóstico de dependência alcoólica.

Quando os problemas provenientes do uso abusivo do álcool se tornam frequentes nas diversas áreas de atuação do indivíduo, como na família, no trabalho e na saúde física, deve-se investigar critérios para o abuso e a dependência do álcool.

Consumo per capita 
O álcool é consumido praticamente em todo o mundo. Globalmente, estima-se que indivíduos com idade de 15 anos ou mais consumiram em torno de 6,2 litros de álcool puro em 2010 (equivalente a cerca de 13,5 g por dia).

No Brasil, o consumo total estimado é equivalente a 8,7L por pessoa, quantidade superior à média mundial. 

Estima-se que homens consumam 13,6L por ano, e as mulheres, 4,2L por ano. 

Quando são considerados apenas os indivíduos que consomem álcool, esta média sobe para 15,1L de álcool puro por pessoa (sendo mulheres: 8,9L e homens: 19,6L).

Embora o Brasil apresente um consumo elevado de álcool, verifica-se diminuição no consumo per capita de álcool puro no Brasil (legal e ilegal) entre 2005 (9,8L) e 2010 (8,7L).

Além disso, a qualidade das bebidas deve ser levada em consideração já que podem ter impacto na saúde e na mortalidade. Quando feitas em casa ou produzidas ilegalmente podem, por exemplo, ser contaminadas com metanol e outras substâncias tóxicas, como desinfetantes. 

Um dado preocupante foi revelado pelo relatório, de que quase ¼ do álcool puro consumido no mundo é ilegal, e, portanto, não regulamentado; em alguns países, chega a 50% (Sudoeste da Ásia e Região do Mediterrâneo, por exemplo). 

No Brasil, cerca de 1,5L do consumo per capita de álcool puro é produzido ilegalmente (aprox. 17% do consumo total). 

As bebidas destiladas correspondem ao tipo de bebida mais consumido no mundo (50%), seguido da cerveja (35%); já as bebidas do tipo vinho correspondem a 8%. 

Na Região das Américas a cerveja é o tipo mais consumido (55%), seguido dos destilados (32,6%) e do vinho (11,7%).

Padrão de consumo
A maior parte da população mundial é abstêmia ou não bebeu nos últimos 12 meses. 

Aproximadamente metade da população mundial (48%) nunca fez uso de álcool. 

No Brasil, cerca de 42% da população não ingeriu bebidas alcoólicas em 2010. 

Entre os brasileiros que nunca beberam, as mulheres são maioria (mulheres: 30,8% ; homens: 12,4%), e ainda, relataram não terem feito uso de álcool nos últimos 12 meses com mais frequência (mulheres: 22% ; homens: 18%).

EXISTE CONSUMO DE ÁLCOOL MODERADO?
O uso moderado de bebidas alcoólicas é um conceito de difícil definição, uma vez que é interpretado de maneiras diferentes, conforme a percepção de cada indivíduo.

Comumente, essa definição é confundida com beber socialmente, que significa uso de álcool dentro de padrões aceitos pela sociedade. 

No entanto, frequentemente a moderação é vista de maneira errônea, como uma forma de uso de álcool que não traz consequências adversas ao consumidor.

A OMS estabelece que para evitar problemas com o álcool, o consumo aceitável é de até 15 doses/semana para homens e 10 para mulheres, sendo que 1 dose equivale a aproximadamente 350 mL de cerveja, 150 mL de vinho ou 40 mL de uma bebida destilada, considerando que cada uma contém entre 10 e 15 g de etanol.

DIFERENÇA ENTRE ALCOÓLATRAS E ALCOOLISTA
Os termos “alcoólatra” e “alcoolista” são usados, quase que indistintamente pela comunidade científica e pelo público leigo para definir a “dependência do álcool”.

Alcoólatra
O termo “alcoólatra” foi utilizado por muitos anos para designar aqueles indivíduos que bebiam abusivamente e que, por conta disto, tinham uma série de problemas decorrentes do uso do álcool. o uso do termo “alcoólatra” é inadequado, pois confunde o dependente do álcool com alguém que “idolatra” o álcool e que, por conta disto, “escolhe” ou “opta” continuar fazendo uso da substância a despeito dos problemas.

O termo “alcoólatra” estigmatiza e rotula o bebedor como alguém que está fadado a uma condição de depreciação, fraqueza e falta de escolhas, pois privilegia o álcool acima de todas as coisas. 

Esta condição não é verdadeira, visto que, quando a dependência está instalada, em muitas ocasiões, o indivíduo bebe para minimizar os efeitos da abstinência então para ter prazer.

Alcoolista
O termo “alcoolista”, por sua vez, é proposto por alguns pesquisadores como uma alternativa menos estigmatizante, visto que, o termo coloca o indivíduo como alguém que tem “afinidade” pelo álcool e não é “seduzido” por ele. o termo alcoolista foi utilizado em substituição ao termo “alcoólatra” a fim de não responsabilizar unicamente o bebedor pelos problemas decorrentes do uso do álcool, mas sim, reconhecer que o álcool é uma substancia lícita, socialmente aceita e disponível, mas quando utilizada em grandes quantidades e frequências expõe o bebedor a muitos riscos.

Dependente de álcool
A expressão mais adequada para designar o indivíduo que tem sintomas físicos desencadeados pela falta do álcool, assim como outros problemas decorrentes do uso desta substância é “dependente do álcool”. a dependência do álcool é uma condição clínica que quando identificada é conferido um diagnóstico e um tratamento para o indivíduo a fim de que ele possa se recuperar e voltar a ter uma vida dentro de um contexto social considerado normal. 

Nos grupos de alcoólicos anônimos seus frequentadores costumam usar os termos acima complementando com o termo em recuperação tipo: alcoólico em recuperação, alcoólatra em recuperação entre outros dependendo da região.

TIPOS DE ALCOOLISMO
Os tipos de alcoolismo variam grandemente. O sociólogo americano Prof. E. M. Jellinek, pioneiro da moderna abordagem científica do problema, descreveu cinco tipos de alcoolismo, embora não exista um tipo puro e no mesmo indivíduo possam ser identificados simultaneamente dois ou mais tipos de alcoolismo.

Tipo 1 (alcoolismo Alpha)
É um tipo de pessoa que ingere álcool em excesso porque tem um grave problema psicológico como a depressão ou ansiedade.

Tipo 2 (alcoolismo Beta)
São o tipo de casos em que não existe dependência alcoólica. Os que frequentam os bares e os proprietários desses bares são os que enquadram melhor este género de alcoólicos.

Tipo 3 (alcoolismo Gama)
Neste tipo de alcoolismo as pessoas conseguem aguentar longos períodos de tempo sem beber mas quando voltam a beber bebem em grandes quantidades.

A partir daí o tempo que as pessoas aguentam sem beber começa a diminuir progressivamente. Este tipo de alcoólicos existe mais frequentemente na Grã Bretanha e nos Estados Unidos.

Tipo 4 (alcoolismo Delta)
Neste caso as pessoas nunca ficam completamente bêbadas mas ingerem pequenas quantidades de álcool várias vezes aos dias. Isto acontece normalmente onde se consome muito vinho como na França.

Tipo 5 (alcoolismo Épsilon)
As pessoas deste tipo ingerem álcool periodicamente mas só ficam satisfeitos quando perdem o controlo de si mesmos podendo mesmo ficarem inconscientes.

Ao contrário do alcoolismo Gama em que se está a maior parte do tempo bêbado neste tipo de alcoolismo as pessoas estão a maior parte dos tempos sóbrios.

SINAIS E SINTOMAS RELACIONADOS AO USO AGUDO E CRÔNICO DE ÁLCOOL
Segundo Dubowski, os indivíduos alcoolizados são portadores de um conjunto de sinais comuns, entre os quais se destacam:

• rubor e edema moderado da face;
• edemas das pálpebras;
• olhos lacrimejantes;
• eritrose palmar;
• hálito alcoólico;
• falta de coordenação motora;
• vertigens e desequilíbrio;
• suores;
• tremor fino nas extremidades.

Hematomas podem indicar traumatismos durante a intoxicação ou alterações da coagulação induzidas por insuficiência hepática. 

No entanto, existem, também, outros sinais relacionados ao consumo crônico e excessivo, como cãibras musculares, vômitos matinais, dores abdominais, taquicardia e tosse crônica.

Os indivíduos que fazem consumo excessivo do álcool revelam um conjunto de sintomas físicos ou psicológicos. 

Os sintomas físicos manifestam-se como pequenos sinais de abstinência, que podem ser neuromusculares, caracterizados por tremores, cãibras ou parestesias; digestivos, caracterizados por náuseas ou vômitos; neurovegetativos, por suores, taquicardia ou hipotensão ortostática; e psíquicos, tais como: ansiedade, humor depressivo, irritabilidade, insônias ou pesadelos. 

A tolerância também é sintoma latente e caracteriza-se pela resistência aos efeitos do álcool.

Quanto aos sintomas psicológicos, caracterizam-se três elementos principais: a alteração do comportamento face ao álcool, a perda de controle e o desejo intenso de consumi-lo. 

A perda de controle foi um conceito descrito por Jellinek , que ajudou muito na compreensão da dependência alcoólica, pois a dificuldade do Álcool e suas consequências: uma abordagem multiconceitual controle é um dos principais fenômenos da dependência. 

O desejo obsessivo e intenso de consumir o álcool (craving) é outro fenômeno da dependência, isto é, o indivíduo alcoolizado nunca está satisfeito com a quantidade consumida, o que o faz encontrar inúmeros motivos para consumir mais bebidas alcoólicas.

O ALCOOLISMO COMO DOENÇA
Apesar dos perigos inerentes aos cinco tipos de alcoolismo, Jellinek apenas considera os tipos Gama e Delta como verdadeiras doenças pelas alterações metabólicas e de nível bioquímico provocadas pelo álcool e que se traduzem clinicamente pela dependência física e pelo síndroma de abstinência.

Um dos processos mais rápidos e mais fáceis de determinar se um indivíduo é ou está em vias de se tornar alcoólico consiste na aplicação do teste CAGE – assim denominado a partir das iniciais das suas palavras-chave em inglês. 

Este teste, apresentado em 1974 pela Associação Americana de Psiquiatria, compõe-se de quatro perguntas:

1. (cut down) – C. O indivíduo sente que deve beber menos?
2. (annoy) – A. O indivíduo reage mal quando é criticado pela quantidade de álcool que ingere?
3. (guilty) – G. O indivíduo sente-se culpado por beber demasiado?
4. (eye-opening drink) – E. É seu hábito tomar uma bebida logo pela manhã para aliviar a tensão nervosa ou dissipar os efeitos de uma ressaca?

Um indivíduo que responda afirmativamente a todas as perguntas – ou mesmo só às três primeiras – é provavelmente um alcoólico. 

Se responder afirmativamente apenas a uma ou duas das perguntas, deverá tomar cuidado com a quantidade de bebidas alcoólicas que ingere.

QUEM É MAIS PROPENSO A SE TORNAR DEPENDENTE DO ÁLCOOL?
Nem todas as pessoas estão igualmente propensas a se tornar dependentes do álcool. Para que a dependência alcoólica ocorra, é fundamental que haja vulnerabilidade e suscetibilidade à dependência, fomentadas por condições biológicas, psicológicas, sociais e ambientais.

Do ponto de vista médico, é relevante o fato de que as enzimas que metabolizam o álcool no organismo diferem de indivíduo para indivíduo, o que se chama vulnerabilidade biológica.

CONSEQUÊNCIAS DO ALCOOLISMO

DADOS QUE CHAMAM A ATENÇÃO
O uso nocivo do álcool é um dos fatores de risco de maior impacto para a morbidade, mortalidade e incapacidades em todo o mundo, e parece estar relacionado a 3,3 milhões de mortes a cada ano.
Quase 6% de todas as mortes em todo o mundo são atribuídas total ou parcialmente ao álcool. 
No Brasil, o álcool esteve associado a 63% e 60% dos índices de cirrose hepática e a 18% e 5% dos acidentes de trânsito entre homens e mulheres em 2012.
Especificamente em relação aos transtornos relacionados ao uso do álcool, estima-se que 5,6% (mulheres: 3%; homens: 8%) dos brasileiros preenchem critérios para abuso ou dependência.

ENCARANDO O ALCOOLISMO NAS SUAS VERTENTES INDIVIDUAL E SOCIAL, TEREMOS:
1. Consequências para o indivíduo: psíquicas e físicas.
2. Consequências sociais: profissionais, familiares; etc.

Consequências psíquicas.
É comum nos alcoólicos a tendência para a ansiedade, a depressão e a irritabilidade.

A irritabilidade é muitas vezes o primeiro sinal de ordem psicológica detetado pelos familiares e colegas.

É discutível em todos os casos se esta tríade é causa ou consequência do alcoolismo, sendo por vezes difícil descobrir a origem do problema. Melhor será encarar esta tríade no ciclo vicioso da manutenção psicológica do alcoolismo.

Em 10% dos alcoólicos surgem perturbações mais sérias à medida que o alcoolismo se agrava. 

Os ciúmes, tão frequentes nos alcoólicos, podem evoluir para um verdadeiro delírio de ciúme, em que tudo é interpretado em relação com a crença básica da infidelidade.

Outra complicação psíquica geralmente surgida depois de um DELIRIUM TREMENS é a alucinação alcoólica, em que o doente sofre de intensas alucinações auditivas, ouvindo pessoas que o insultam e ameaçam.

Também depois de um DELIRIUM TREMENS pode instalar-se um SÍNDROMA DE KORSAKOFF, que compreende amnésia de fixação (corresponde a um gravador que deixou de gravar, mas é capaz de reproduzir o material gravado), confabulações, ou seja, a criação ou invenção de factos destinados a colmatar os vazios da memória.

Num grau avançado, teremos a demência alcoólica, semelhante a outras demências, mas em que predomina nos primeiros tempos o apagamento dos padrões éticos anteriores à doença.

De longe, a complicação psíquica e orgânica mais frequente do alcoolismo é o DELIRIUM TREMENS, que culmina o SÍNDROMA DA ABSTINÊNCIA e envolvem, além de sintomas orgânicos como febre, taquicardia, suores, etc., sintomas psíquicos: confusão mental, onirismo (como num sonho), alucinações visuais (geralmente de animais) e tácteis, grande ansiedade e, por vezes, delírio ocupacional (o doente fala e atua como se estivesse no seu trabalho habitual).

Consequências físicas.
São múltiplas as lesões físicas provocadas pelo alcoolismo. As mais importantes e mais conhecidas são as lesões hepáticas, que muito sumariamente se podem esquematizar em:

1. Fígado gordo alcoólico: reversível se o doente deixar de beber.
2. Hepatite alcoólica (inflamação do fígado): pode ser reversível ou agravar-se, conduzindo a uma cirrose.
3. Cirrose alcoólica (substituição das células do fígado por tecidos fibrosos): é irreversível, embora seja possível mantê-la estacionária através da abstinência do álcool.

Outra consequência grave é a lesão cerebral. 

A tomografia cerebral computorizada (TAC) é um método radiológico que permite a descoberta de formações anómalas no interior dos tecidos, como, por exemplo, tumores, detectando também os vazios ou atrofias dos tecidos.

O TAC revelou que os cérebros dos grandes bebedores podem estar atrofiados. Esta atrofia não tem ainda hoje explicação unívoca, admitindo-se que esteja ligada à deficiência de vitamina B1. 

Também o sistema nervoso periférico (nervos motores e sensitivos) pode estar frequentemente afectado. É o que acontece na polinevrite alcoólica – dores e parestesias geralmente das extremidades inferiores, nos pés em especial. 

A evolução pode fazer-se no sentido do pé pendente com falta de força para a flexão dorsal. 

Numa situação extrema, a polinevrite impossibilita a marcha (às vezes encontra-se também um componente cerebeloso com a consequente ataxia) e o doente acaba por viver acamado e com a desagradável acompanhante de incontinência esfincteriana, pois a polinevrite ataca também os nervos que controlam os esfincteres musculares do ânus e bexiga.

Muito comum também é a gastrite, responsável pelos vómitos matinais, tão frequentes nos alcoólicos. 

As úlceras gástrica e duodenal, que não são consequência do alcoolismo, surgem, no entanto, frequentemente nos alcoólicos. 

O tratamento é por vezes cirúrgico, efetuando o cirurgião uma gastrectomia parcial (ablação parcial do estômago). 

Desta gastrectomia resulta uma absorção maciça de álcool e a alcoolemia sobe em flecha, atingindo valores muito elevados – até seis vezes a alcoolemia esperada para uma dada quantidade de bebida alcoólica. 

Este facto reveste-se de importância porque, após a intervenção, o bebedor mantém a sua ingestão alcoólica e sofre as consequências de alcoolemias elevadas com a «consciência tranquila».

Também o álcool pode estar na origem quer da pancreatite crónica, quer da aguda. Esta, clássica dos grandes comedores e bebedores, são um quadro de doença abdominal aguda extremamente grave que se acompanha de estado de choque e se confunde com facilidade com a perfuração da úlcera gástrica.

Convém mencionar ainda certos tipos de cancro em que o álcool, aliando-se ao tabaco, teria um papel etiológico: cancro da boca, laringe, faringe e esófago. 

Em consequência da doença hepática, podemos encontrar anemia e tendência hemorrágica, 
principalmente devido ao déficit de uma série de fatores de coagulação sintetizados no fígado.

Consequências socioeconômicas
As consequências do uso de álcool também oneram a sociedade, de forma direta e indireta, potencializando os custos em hospitais e outros dispositivos do sistema de saúde, sistema judiciário, previdenciário, perda de produtividade do trabalho, absenteísmo, desemprego, entre outros. 

Ainda, em todo o mundo, nota-se que as faixas etárias mais jovens (20-49 anos) são as principais afetadas em relação a mortes associadas ao uso do álcool, traduzindo como uma maior perda de pessoas economicamente ativas.

COMO MINIMIZAR OS RISCOS DO ÁLCOOL
Considerando as consequências catastróficas para a saúde pública derivadas do consumo excessivo do álcool, tem-se procurado estabelecer a quantidade máxima que um indivíduo saudável pode ingerir sem perigo. 

Na França, cuja capitação alcoólica não é muito superior à portuguesa, metade dos leitos hospitalares é ocupada por doentes sofrendo as consequências do alcoolismo: cirrose, pancreatite, polinevrite, etc. 

A este custo social há que acrescentar os acidentes de trabalho, de viação e o absentismo.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem-se interessado pelo estabelecimento desta fronteira do lícito em álcool. 

Geralmente, admite-se como limite 1g de álcool por dia por quilo de peso para um indivíduo saudável alimentando-se bem. 

A mulher grávida não pode beber qualquer quantidade de álcool; as crianças também não devem beber qualquer quantidade porque com muito mais facilidade do que os adultos caem em coma etílico.

Com efeito, só depois dos 18 anos o fígado tem a capacidade para metabolizar devidamente o álcool.

Os indivíduos do sexo feminino, em princípio, têm também uma capacidade de destruição do álcool inferior aos do sexo masculino, por possível influência hormonal ao nível da metabolização hepática.

TRATAMENTO
Psicoterapia
É indispensável o acompanhamento psicoterapêutico do alcoolista. Discutir com o doente as causas que levaram ao alcoolismo, estabelecer estratégias e objetivos são essenciais para um tratamento eficaz e para a manutenção da abstinência.

Assim, as psicoterapias são fundamentais na intervenção terapêutica da dependência e abstinência do álcool.

Objetivo da psicoterapia
Como o uso do álcool é capaz de produzir consequências físicas, intelectuais, psicológicas e sociais para o dependente, os programas de terapia são multidisciplinares e o tratamento é realizado em longo prazo, com o objetivo de conseguir uma abstinência satisfatória, no entanto muitos especialistas discordam da abstinência parcial.

Vale ressaltar que os tratamentos são voltados tanto para o indivíduo acometido quanto para os familiares.

Modalidades de ajuda psicoterápica:
Ajuda individual: 
Tentativa de construir uma relação que ajude a fortalecer o ego do alcoolista por meio da oferta de cuidado e atenção sem restrições. 

Os meios comprovados para isso são o estímulo, o compartilhamento de informações, o alívio das pressões emocionais, a discussão dos problemas, o desenvolvimento de comportamentos positivos, o confronto com reações comportamentais inadequadas, a intervenção direta para mudar a situação real e o estabelecimento de limites e barreiras;

Ajuda de grupo: 

Participação em grupos de ajuda mútua, com pessoas com interesses em comum ou de indivíduos igualmente acometidos. 

Os comportamentos problemáticos provocam reações nos demais integrantes do grupo e tornam possíveis novas experiências e alterações no comportamento e na maneira como as situações são vivenciadas. 

O grupo oferece amparo emocional e aceitação; assim, os medos, as desconfianças, as agressões e as frustrações podem ser assimiladas, possibilitando que o indivíduo lide de modo mais positivo com a realidade e suas exigências, ganhe autoconfiança e compreensão com os outros e se torne mais tolerante com os fracassos e as decepções

Medicamentos.
É indispensável para o controlo do síndroma de abstinência. 

Habitualmente, usam-se vitaminas do complexo B em altas doses e tranquilizantes. 

Como terapêutica sintomática das queixas de tipo neurótico após a desintoxicação, é muitas vezes prescrita uma terapêutica de manutenção com ansiolíticos, o que, no entanto, envolve nestes doentes o perigo da substituição de uma farmacodependência por outra. 

Social.
Visa à reinserção social (familiar, profissional, etc.) do alcoólico e constitui geralmente uma das finalidades das sociedades antialcoólicas. 

No tratamento social pode ainda integrar-se a psicoterapia de âmbito familiar.

AS CAUSAS POSSÍVEIS DO ALCOOLISMO
As contribuições científicas para o entendimento das causas do alcoolismo podem ser classificadas em quatro modelos, em parte concorrentes e, em parte, complementares:

Modelo psicanalítico: 
Enxerga no consumo de drogas, especialmente na embriaguez, um momento de regressão baseado em uma estrutura pré-mórbida de personalidade, o que, por sua vez, remete a um distúrbio anterior na relação mãe e filho. 

Nesse âmbito teórico, termos como “orgasmo farmacogênico”, “fetiche substituto para o seio materno”, “canibalismo”, “narcisismo” e “coprofagia” são importantes para a explicação do fenômeno.

Modelo psicopedagógico: 
Vê no consumo de cada tipo de droga um comportamento adquirido nas interações sociais, reforçado por normas da sociedade ou da cultura. 

Experiências positivas com a substância no estágio inicial da de-Álcool e suas conseqüências: uma abordagem multiconceitual pendência também podem reforçá-la. 

Pertencem a esse âmbito teórico termos como “modelo de aprendizagem”, “ambiente terapêutico”, “pressão social”, “autocontrole” e “capacidade de adiamento da satisfação”;

Modelo sociológico ou de teoria da socialização: 
Vê no consumo de drogas, entre outras coisas, a expressão de uma determinada situação social ou de um determinado ambiente familiar. A isso se somam fatores condicionais, como mudanças culturais e fatores político-sociais. 

A esse âmbito teórico pertencem termos como “criação repressiva/permissiva”, “status socioeconômico”, “mundo da ordem estabelecida”, “consumo insaciável” e “anonimato”;

Modelo multifatorial: 
Enxerga o consumo de drogas como o efeito simultâneo de muitos fatores que interagem mutuamente. 

Esse modelo remonta os esforços de definição da OMS, mas foi adaptado na literatura técnica européia. 

As características individuais que levam ao desenvolvimento da dependência de drogas são resumidas, nesse âmbito teórico, em “drogas”, “personalidade do consumidor de drogas” e “sociedade” (ou círculo social).

Por motivos bastante compreensíveis, o modelo multifatorial se mostrou o mais útil para o trabalho na prática, pois não existe uma causa comum para o consumo de drogas, assim como não existe um tipo de consumidor. 

Na verdade, o que se encontra na história de vida do alcoolista e dos dependentes de outras drogas são múltiplos fatores que se somam, formando uma rede de condições, cuja única consequência ou solução possível encontra-se nos comportamentos aditivos. 

Ao mesmo tempo, fica evidente que é raro despreender da história de vida e do ambiente social do consumidor qual droga ele escolherá. Essa escolha depende muito mais de ofertas e encontros fortuitos.

PASSOS PARA A RECUPERAÇÃO
O primeiro passo:
Reconhecimento da doença pelo próprio alcoólico. 

O segundo passo:
Tomada de consciência da sua real situação – física, orgânica, social e psíquica.

Terceiro passo:
Motivação para o tratamento.

Objetivo do tratamento:
A finalidade de qualquer tratamento é devolver ao alcoólico e à sua família uma vida normal. 

Na sua maioria, os médicos especialistas acredita que este objetivo só se consegue através de uma abstinência total, já que um alcoólico nunca fica completamente curado – limita-se a resistir à tentação de beber.

As perspectivas para a maioria dos alcoólicos são consideravelmente mais otimistas do que muitas pessoas – incluindo médicos. 

Os alcoólicos que querem sinceramente perder a sua dependência conseguem-no – desde que procurem e aceitem a ajuda competente.

Há, na literatura científica, provas consistentes de que o tratamento da dependência de álcool oferece resultados positivos àqueles que se submetem. 

Aproximadamente 70% desses pacientes manifestam redução no número de dias em que houve consumo de álcool e melhora dentro de um prazo de seis meses. 

Ademais, o tratamento oferece melhoras ao funcionamento familiar do alcoolista, à vida conjugal e à saúde mental.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A questão de como reagir aos diversos padrões de consumo do álcool, à indústria de bebidas alcoólicas e ao problema do alcoolismo é uma posição arbitrária quem tem imposto às famílias, às cidades e às nações a criação de inúmeras medidas de intervenção responsáveis pela definição das seguintes aspirações:

• uma cultura da abstinência ou uma sociedade cujo ideal é estar livre dos meios que causam dependências;
• uma cultura ambivalente ou uma sociedade em que o consumo é um ritual excepcional;
• uma cultura permissiva, ou seja, uma sociedade de liberdades individuais e arbitrariedades;
• uma cultura funcionalmente perturbada ou uma sociedade que destrói a si mesma ou que é destruída pelo álcool.

Em qual desses ambientes é melhor viver?

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